quinta-feira, 1 de maio de 2008

A concha cheia do amor

Sempre me perguntei para onde vai tanto amor... quando o amor acaba...
Seja pela chegada dos Cavaleiros do Apocalipse, seja mais por ausência que presença, a falta de tolerância, a falta de paciência e a falta mesmo de amor.
Ou quando não podemos vivê-lo mais...
Sempre achei que este amor se evaporava.
Assim, volátil. Efêmero.
A concha vazia do amor.
Uns morrem de fome, outros de indigestão.
Esta dúvida me incomodava.

Enfrentei.
Sem armas ou armaduras.
De cara, coração e alma limpos.
De maõs vazias.
Me despi.
E assim, totalmente nua eu descobri o que é o amor.
Sem pudor, sem medo.
Sem cobranças, sem julgamentos.

Sim, ainda sim, o que eu tenho de amor é grande e dá para alimentar o mundo.
Doloroso, sim.
Porém, era preciso.
Eu, tão frágil e tão forte.

Eu vi o que meus olhos cegos me enganavam.
Percebi tristemente que eu não mais "sentia" os seus olhos.
Não eram mais os mesmos.
Ou é minha ótica que havia mudado.
Sem cumplicidade, nenhuma. Mais uma vez um engano.

Sempre quis o seu olhar de amor.
O mesmo olhar que eu dirigi a você, tantas vezes.
Aquele olhar de amor, que eu sempre te falei.
Sei que você não tem este olhar para mim.
Já não faz diferença.

Eu já acordei de madrugada só para te ver dormir, meu amor.

E falei, o que minhas palavras, antes tão ternas tinham a revelar, e elas eram mais ternas ainda.
Elas sempre foram doces.

Sim, meu amor é grande. Ainda belo e puro. Sincero.
Amor bonito. Amor bom. Enorme. Gigante.
Pulsando lua.
Que me faz esquecer mágoa, ressentimento e decepção.
De amores mofados. Amores fugazes.

E como é incomensurável o meu amor que preencheu a sala toda naquele momento.
Há uma tonelada em mim, embora seja tão leve e tão fresco o meu amor.
Me fez expô-lo antes de calar.

Só me ouça.
E cantei a mais linda das canções. O amor.
Entreguei toda a minha fragilidade de presente, estampada de beleza e transparência.
Tênue linha que separa o "mim" de "ti".

Sim, ainda amo sim. Muito.
O que tem de amor dentro de mim por você ainda é enorme...
E amo os pequenos. Louca e insanamente.
Amo muito. Muito.
E chove em mim por eles. Ainda.
Chove de saudades em mim.

E meu amor gorducho vai chover de saudades.
Ainda.

Um toque de tempo se passou.
E eu morri naquele abraço. Morri uma, duas, cem, mil vezes...
Abraço incógnito. Assustado.
Quase carinho. Abraço de urgência.
Estática e paralisada de dor e de amor.
E de um milhão de sentimentos confusos e debilitados com um só nome.
Fim.
Queria eternizar um tempo que não volta mais. O impossível.
Fiquei ali. Morta em seus braços.
Velando um amor tão vivo ainda em mim.
Parti, pois sabia.
Eu havia sobrevivido mais uma vez. E isto me faz crer.
Amor, ainda, sim.

Choveu. Choveu. Choveu. Muito.
Naquele pedaço da Paulista, eu era uma paulista em pedaços ou só um pedaço de gente.
Chovia a cântaros e a cântaros eu também chovia.
Lá fora chovia.
E chovia também em mim.
Eu chovi, chovi, chovi.
Doída e dolorida.
Fera ferida e machucada.
Exagerada, vestida de desespero.
A chuva cessou.
Não mais que 10 minutos no tempo da terra, uma eternidade no tempo da dor.
E meu corpo seco parou de chover.

Me sentindo mais mulher do que nunca.
Forte, leoa.
Vesti o luto. Tristeza.
Pronta para o sepultamento.

Noite de ressaca.
Exausta de tanto chover em mim.

Eu tenho ouro no coração.
E isto nunca vai mudar.

Este amor puro e sincero mudou de nome e de lugar, mesmo sendo o mesmo e de nunca ter saído de mim.
O amor sempre fica dentro da gente.

Nesta noite a terra tremeu.

(O terremoto no Brasil de 2008 foi um sismo de 5,2 graus na escala de Richter, ocorrido em 22 de Abril de 2008, sentido em toda a região costeira e grande parte do interior dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais e Santa Catarina. O abalo não causou nenhuma morte ou ferido grave, porém danos leves foram causados a estruturas de varios edifícios.
O epicentro do terremoto foi localizado na região marítima a 270 quilômetros da Capital do estado de São Paulo, e a 218 km aproximadamente do litoral paulista. O fenômeno foi registrado às 21h00min48 e durou 3 segundos de acordo com o Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB).)

( insônia, mais de 4 da manhã, 29/04/2008 )

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